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sábado, 19 de outubro de 2013

A Vinicius de Moraes

Hoje, o Soneto de Fidelidade acordou-me. Pensei em Vinicius e no seu centenário de nascimento.
Senti saudades de um dos meus poetas prediletos. Mergulhei em alguns de seus versos e pensei em compor os meus, para ele.
Apenas um gesto de delicadeza para quem soube, desde a minha adolescência, inspirar o gosto pela leitura e escrita.
Olho para os livros do poetinha, que guardo em lugar especial na minha biblioteca e é impossível não me render à emoção que aflora.
A monografia do meu curso de Especialização em Estudos Linguísticos e Literários teve como título “Vinicius de Moraes: sob o signo da paixão e da poesia”. E foi sob o signo da paixão e da poesia que me vi completamente envolvida pelos versos de Vinicius.
Os textos de Vinicius tem, para mim, o verdadeiro gosto da paixão, feito a fruta madura cujo sumo escorre doce, suave, pela boca. Vinicius é isso. Uma intensidade refletida em versos. Uma paixão derramada em forma de poema. Uma suavidade tecida em prosa.
E ele viveu aqui, em terras baianas. Encantou-se por Itapoan e nela passou um bom tempo, vivendo a paixão, saboreando o tempo bom da Bahia.
Se fechar meus olhos poderei ver o poeta andando pelas areias de Itapoan. De certa forma, ele ainda está ali, mesmo que seja em forma de estátua – uma merecida homenagem. Drummond tem sua estátua na praia de Ipanema, no Rio. Vinicius tem a sua, na praia de Itapoan, em Salvador.
E hoje é um dia especial.
Parabéns, meu amado poeta.

Rita Venâncio.
Salvador, 19 de outubro de 2013.

domingo, 1 de setembro de 2013

Depois das cinzas da quarta-feira de Carnaval

Tudo era silêncio no pequeno apartamento. Minto. Tudo não. Apenas o eco quase surdo do velho relógio que resistia, atento ao tempo, pregado na parede nua, quase imaculada, podia ser ouvido. Fazia coro com o fragilizado coração.

Sempre gostara do silêncio. Sobretudo daquele que cobria as madrugadas frias do final de inverno. A alma também tinha o seu quinhão de gelo, seus resquícios de mágoa inserida no sangue quente que ainda corria nas veias.

E nesse silêncio a lembrança dele foi desperta, como saída das páginas de um romance.

Não só a lembrança, mas também – estranhamente – o perfume amadeirado e até mesmo o cheiro de cigarro barato.

Ela revirou-se na cama, tentando, em vão, espantar aquela lembrança inoportuna. Afinal, já fazia tanto tempo... Não era justo com ela que esse mesmo tempo que as bocas diziam curar tudo viesse perturbá-la.

Colombina. Assim ela se trajara naquele remoto Carnaval.

Pierrô. Assim ele escondia a face atrás da máscara, como se possível fosse viver uma outra vida, ser nova personagem.

Entre confetes e serpentinas o encontro.

Entre as cinzas da quarta-feira, a despedida.

Diziam ser apenas amor de Carnaval. Duração curta, passagem de um átimo nos corações apaixonados.

A Colombina, encantada, suspirava entre os mesmos confetes e serpentinas.

O Pierrô, embalado pelas antigas marchinhas, rodopiava sobre o calçamento já gasto das antigas calçadas. E sabia o poder que exercia sobre a Colombina. E nesse cordão vinham as melindrosas, não menos fascinadas.
Uma volta nos passos, o encontro dos olhos, a seta certeira de um cupido desastrado que naquele dia percorria a cidade incendiando corações quase implumes.

Do olhar ao beijo, uma eternidade. Mas até a eternidade fazia-se paisagem para o tempo. Tudo, afinal, festa e fantasia.

Combinaram que seriam apenas a Colombina e o Pierrô, sem qualquer outra identidade. Seriam, naqueles dias de Carnaval, apenas personagens de uma história, partes de um contexto fragmentando pelas fantasias. E assim foi.

Mas a Colombina não resistiu. O coração, inflamado, queria mais do objeto amado. Queria desvendar os segredos, olhar atrás da máscara, ouvir o nome, saber a vida.

Tudo em vão. O Pierrô levara a sério a combinação. Não queria nomes, identidades.

Último dia de Carnaval. Os dois, novamente, juntos pelas ruas da cidade, de mãos dadas, trocando beijos e travessuras.

Ao findar-se a festa o Pierrô partiu, na ponta dos pés, enquanto a Colombina sonhava.
E, de tanto sonhar, esqueceu, no coração dele, a própria identidade.

Rita Venâncio.
Salvador, 01 de setembro de 2013.
(Imagem: http://rceliamendonca.wordpress.com/2012/02/20/carnaval-2/Tela de Richard Geiger)

terça-feira, 17 de maio de 2011

A rua onde moro

Moro em uma ruazinha estreita, encravada no centro da cidade, há mais de vinte e dois anos.
Quando os carros passam é preciso colar o corpo às casas, também coladas umas às outras, porque as calçadas também são estreitas. Mais parecem um fio que corre ao lado do calçamento antigo, daqueles de pequenas cidades do interior.
Outro dia eu estive pensando e, pela primeira vez, senti falta de árvores.
Na rua onde moro não há árvores.
Lembrei-me das amendoeiras  descritas no romance “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez.
Pensei como é triste uma rua sem árvores e sem espaço. Não tanto pelo espaço, mas pelas árvores.
Quando eu era criança – e já faz muito, muito tempo – morava na cidade satélite do Gama, em Brasília, onde as ruas eram enormes e todas do mesmo tamanho, pois foram planejadas. Apesar de serem de chão batido – o asfalto só chegou por volta do início da década de 1980, quando nos mudamos para o interior da Bahia – podíamos brincar na rua. Havia muito pouco carro. Isso era na década de 1970, em plena ditadura. Crianças, nada sabíamos do que acontecia – saberíamos muito tempo depois, já adultos – era o tempo da inocência.
Em minha casa havia um quintal enorme. Lembro-me particularmente da mangueira, pois quando florescia encantava os meus olhos. E até hoje é assim quando vejo uma mangueira em flor. Para mim é uma das mais belas imagens poéticas da natureza.
Na casa de minha tia as árvores formavam um pequeno pomar com abacateiro, jaqueira e um pé de jambo cujas flores perfumadas eram um prazer à parte.
Hoje percebo a falta das árvores na rua onde moro como a ausência da natureza no mundo objetivo e concreto que nos sufoca.
E não há poesia onde as ávores não crescem, florescem e frutificam, ou não, apenas enfeitam a paisagem que nossos olhos estão desacostumados a admirar.
Uma rua sem árvore é um jardim sem flores. Não há passarinhos, nem andorinhas, nem mesmo um beija-flor para encantar os olhos.
Parece que as árvores foram simplementes apagadas de seu espaço, como um empecilho que precisava ser removido para a construção das casas.
O resultado foi que a rua ficou espremida entre o concreto cinzento. O verde foi apagado da palheta de cores e com ele todo o encanto que poderia tornar a paisagem menos triste e oprimida.
Penso que talvez seja a hora de criarmos o movimento dos sem árvore. A natureza agradece.

Rita Venâncio.
Salvador, 16 de maio de 2011.


(Imagem: penseeinove.blogspot.com)

domingo, 15 de maio de 2011

Não existem assassinos no Paraíso

Depois de tantos anos, ainda não me acostumei com o que os meus olhos veem, com o que minhas mãos tocam e os demais sentidos tão bem percebem.
Ao contrário do que alguns pensam, – e são muitos –, a experiência com a morte não me tornou fria e insensível. Ainda me emociono. Ainda consigo me ver na pele de uma mãe que perdeu seu filho, de alguém que perdeu um ente querido.
Meus pés tocam o chão lamacento.
Parece que estou no meio de um pântano.
Mata fechada.
Olho para uma nesga do céu plúmbeo e vejo o voo de alguns abutres. Já sentem o cheiro inconfundível do corpo em decomposição.
Aves de rapina.
Aves de mau-agouro.
Ali, observando aquela cena de mais um crime, penso em minha infância e nas aulas de religião. Especificamente veio-me à memória uma aula em que um padre dissertava sobre o perdão. E penso quão difícil é perdoar. Sobretudo perdoar alguém que tira uma vida, alguém que simplesmente ceifa de outro seu bem mais precioso. Eu não conseguiria perdoar. Sou humana demais para isso. Humana demais para aceitar que devemos perdoar. Mas admiro as pessoas que conseguem perdoar. Admiro e respeito.
Eu consigo ver apenas a treva nos olhos do assassino. E isso quando é possível prender um assassinato, fazer com que a justiça seja feita.
Quando optei por ser policial meus colegas de faculdade, no curso de Direito, mal podiam acreditar. Fui uma aluna brilhante. Seria, decerto, uma das melhores advogadas da área criminal, mas algo me angustiava de forma assombrosa. Era como um esqueleto que se escondia no armário e saía todas as noites para me assustar. Não raras vezes tambérm aparecia durante o dia. E me atormentava da mesma forma. Eu pensava que jamais seria capaz de defender um assassino. Jamais aceitaria lutar por alguém que havia tirado a vida de outra pessoa. Não sei se ponderei o suficiente, mas abri mão daquela carreira com possibilidades e resolvi ser policial. Fui à luta. Especializei-me, pois não queria ser apenas um policial que estivesse na linha de frente, ou melhor, na linha de tiro. Eu queria investigar, solucionar, descobrir quem era o assassino. Não foi fácil. Para as mulheres nunca é. Mas eu consegui o respeito de todos, pelo menos dos que me interessavam, e estou aqui, seguindo a trilha, buscando pistas, analisando o cenário de mais um crime.
“Do pó vieste. Ao pó retornarás”... E é no pó que estão as evidências. No pó, nas cinzas, nos corpos. Os corpos também falam quando não mais tem em si o sopro da vida. Eles tem sua linguagem própria e o meu trabalho consiste em interpretar essa linguagem, dar voz a quem já não pode falar.
E há muitos corpos. Todos os dias. Corpos espalhados pelo chão como se fossem flores. Mas não há poesia nessas cenas. O que há são dores, perguntas, desolação. É uma cena que se repete todos os dias, todas as noites, sem escolher hora, sem escolher lugar, sem escolher classe social ou qualquer outro fator que diferencie ou iguale as pessoas. Na morte, todas são iguais.
O meu trabalho é fazer com que as provas possam identificar o assassino e que assim ele pague pelo que fez. Mas é complicado. É muito complicado. A violência está entranhada nas grandes e pequenas cidades. Não há mais tranquilidade no olhar das pessoas, não há confiança de que o poder público possa resolver ou pelo menos amenizar um pouco de toda essa violência que explode em ruas, becos, avenidas. Essa é a fotografia em preto e branco que vejo todos os dias. Digo preto e branco porque há muito tempo deixei de ver as cores nesses episódios. Há muito tempo acostumei a ver somente duas cores em cada cena de um crime. É como se fosse um mundo sem cor, totalmente disforme como a personalidade desses assassinos frios.
Entretanto, eu preciso, tenho que acreditar ser possível, um dia, as coisas melhorarem. Creio que um dia o lobo mau não sairá mais da floresta para atacar Chapeuzinho Vermelho e sua vovozinha. E o mundo está repleto deles. Principalmente daqueles que atacam mesmo as crianças. E são esses os tipos mais sórdidos, mais desumanos. 
Voltando ao cenário que me espera, procuro na lama pistas que possam me levar ao autor de mais um crime. O corpo de uma mulher repousa no meio do mato. Não é qualquer pessoa que consegue olhar e ficar insensível. Geralmente eu consigo separar bem as emoções, mas é uma luta diária, um sofrimento lancinante que me atinge no fundo da alma. Talvez por isso eu tenha optado por não me apegar a ninguém de forma intensa. Meus pais já faleceram. Sou filha única. Não me casei, nem tive um relacionamento que ultrapassesse a barreira dos quatro meses. Os homens que tive não aguentaram a barra. Melhor assim. Não lido bem com romances reais. Melhor, sempre melhor, os da ficção. Ultimamente tenho evitado relacionamentos amorosos. São muito complicados. Vivo sozinha. A única companhia é o meu gato. O único que não reclama do meu trabalho.
Olho novamente para o céu nublado. Começa a chover e isso não é nada bom para o meu trabalho. Terei que parar um pouco. Volto para o carro, um abrigo para a tempestade que cai violentamente. Quando eu terminar de analisar a cena do crime ele entrará para as tais estatísticas. Só me pergunto o que estão fazendo realmente para diminuir os números de homícidios nessa cidade. Aliás, aqui está parecendo terra sem lei, o velho oeste. Por qualquer motivo alguém tira a vida do outro. E assim vão entrando para as estatísticas. Números e mais números. O que eu gostaria era que os representantes do povo estivessem presentes nessas cenas de horror, ou quando a polícia tem que chegar a uma mãe ou a um pai e dizer que sua filha, como essa que aqui jaz, está morta, que foi assassinada de forma brutal. Mas eles, os tais representantes do povo, não estão aqui. Nessas horas eles estão em seus gabinetes, no ar condicionado, no conforto para os seus corpos. E eu tenho outros corpos para analisar.
Finalmente, o que penso é que não existem assassinos no Paraíso. Eles estão sobre a Terra.
Rita Venâncio.


(Imagem: conscienciaempoesia.wordpress.com)

Ela saía todas as tardes

Ela saía todas as tardes. Sempre no mesmo horário: às 16:00 hs. Pontualidade britânica.
Nunca repetia a mesma roupa. Estava sempre elegante. Usava saia, de cores discretas e variadas, comprimento pouco abaixo dos joelhos, blusa de seda, sapatos Anabela, meia calça. Os únicos adereços eram um par de brincos, um colar de pérolas – genuíno –, presente do marido, e a aliança de casamento.
O marido chamava-se Rodolfo, homem de meia-idade – aliás os dois eram da mesma idade –, pequeno empresário, dono de uma floricultura. Não tiveram filhos, por absoluta e mútua escolha. Há muito que o mundo não era mais um lugar seguro para colocar filhos. Melhor assim. Sempre que pensava no fato de não ter tido filhos, ela lembrava da última frase dita pela personagem de Brás Cubas, no romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis: “... – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Palavras amargas? Não, realistas.
Ela, Ana Amélia, era escritora. Mulher discreta, tinha poucos amigos. Escrevia em casa, sempre no notebook. Talentosa em sua arte, havia publicado cerca de dez livros, distribuídos entre romance e poesia. Avessa a entrevistas, considerava-se uma reclusa. Identificava-se muito com o jeito, também recluso, do escritor Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba. O bruxo do Cosme Velho e agora o vampiro de Curitiba. Vício de escritora. Era fascinada por pinturas dos séculos XVII, XVIII e XIX. Não gostava muito de arte moderna. Dizia que as pinturas eram apenas umas telas borradas. Para Ana Amélia, a pintura devia retratar pessoas, paisagens, objetos. Mas tinha lá suas exceções. Gostava da arte de Frida Kahlo e de Pollock.
De poesia era aficcionada por haicais, pequenos poemas que captavam nos breves versos uma essência particular. Ela os via como uma deliciosa fragrância em minúsculos frascos de perfume. Implicava com a poesia concreta. Na época da faculdade uma professora de literatura brasileira, a melhor que tivera, havia comentado que realmente Ana Amélia não se deixava levar pelo Concretismo. Nas aulas de literatura dava preferência aos poetas românticos e aos simbolistas. Tanto na literatura brasileira quanto na portuguesa. Foi na faculdade que conheceu a escrita poética de Florbela Espanca e por ela ficou um longo tempo absorvida. Uma bela viagem ao passado.
Ana Amélia amava escrever. E escrever era um ato extremamente solitário. Cabia nela como se fosse uma luva, pois Ana nunca foi muito chegada às pessoas. Pessoas a deixavam apavorada. Até chegou a fazer análise, apenas por alguns meses. Depois desistiu. Dizia que sua terapia era escrever. E ler. Lia muito. Alguns jornalistas chegaram a dizer que ela era excêntrica justamente por ser reservada. Se apaixonava com total entrega à escrita. Foi assim quando descobriu os haicais e começou a compô-los intensamente.
Mas havia as misteriosas saídas vespertinas.
Só não ia àquele endereço nos finais de semana e feriados. Rodolfo estava em casa nessas ocasiões e talvez estranhasse suas saídas. Em qualquer estação que fosse, no tempo de chuva ou sol, Ana Amélia saía. E tinha sido assim nos últimos dez meses. Quase um ano.
Rodolfo sabia de suas saídas, mas não totalmente. Ele era metódico, rotineiro. Os dois eram assim. Talvez por isso, também, tenham ficado juntos por tanto tempo. Quinze anos.
O marido nunca telefonava no horário em que ela não estava em casa e isso a tranquilizava. Mesmo assim, Ana Amélia não esquecia de levar o celular. E o notebook.
Um dia Rodolfo começou a desconfiar. Foi de repente, assim como uma lufada de vento ao cair da tarde.
Ele não se sentia bem. Estava no escritório da floricultura, cujo nome era Bem-me-quer, quando começou a sentir um ligeiro mal-estar, uma espécie de enjoo. Resolveu ir para casa, descansar um pouco. Há dias vinha em um ritmo alucinante de trabalho. Havia conseguido um novo contrato para fornecimento de flores e o cliente era de uma exigência tirânica. Mas pagava bem. Muito bem.
Rodolfo pegou o carro e foi guiando pela Avenida Beira-mar. A brisa marítima foi como um bálsamo para seu corpo e espírito. Relaxou. De repente ele olha para o outro lado da rua e vê Ana Amélia entrando em uma casa que ficava de frente para o mar. Pensou que talvez ela tivesse ido fazer alguma visita. Entretanto, o bichinho da desconfiança começou a tecer seu caminho na cabeça e no coração de Rodolfo. Ele pára o carro em frente à murada da praia. Não desce, apenas fica um longo tempo observando o movimento na casa. Mas não havia movimento. A casa permanecia imutável. Somente as cortinas flutuavam ao toque do vento que vinha do mar.
Era por volta de 16:30 hs. Ana Amélia só saiu da casa às 18:00 hs. Estava sozinha, e assim entrou no carro estacionado na garagem ao lado da casa. Rodolfo sempre chegava em casa às 19:30 hs. Nesse dia chegou mais cedo, logo depois de Ana Amélia. Quando ele entrou em casa ela ainda estava vestida com a mesma roupa. Levou um susto assim que Rodolfo entrou e colocou a penca de chaves no móvel.
Ele, então, perguntou:
– Você saiu?
– Sim, fui fazer umas compras.
Mas não havia sacolas ou pacotes. Rodolfo notou. Resolveu não comentar.
– E você? A essa hora em casa... Aconteceu alguma coisa? Quis saber ela.
– Sim, não me sinto bem. Devo ter comido alguma coisa que me fez mal.
– Quer um remédio?
– Não, obrigado. Estou me sentindo melhor. Vou tomar um banho e descansar um pouco.
– Certo. Vou preparar o nosso jantar.
Rodolfo saiu e só então Ana Amélia percebeu a ausência de sacolas. Idiota, pensou dela mesma.
Enquanto isso, Rodolfo estava intrigado com a mentira da mulher. Aquele bichinho da desconfiança deu mais uma mordida em seu orgulho de homem e ele perguntou a si mesmo: – Será que ela tem um amante?
Na cozinha, Ana Amélia cortava tomates maduros para o molho, entre um gole e outro de vinho. Precisava beber para tentar ficar um pouco anestesiada. Estava preocupada. Não gostava de mentiras. Sempre soube que mentiras são uma armadilha.
Jantaram em silêncio. Um silêncio incomum, pesado, dolorido como suas consciências.
Ele, desconfiado.
Ela, arrependida.
Depois do jantar Rodolfo foi para a cama, mas não conseguiu dormir. Sua cabeça parecia querer explodir de tanta dor. Enxaqueca.
Ana Amélia voltou ao notebook. Sua cabeça fervilhava de ideias. Precisava escrever. Não podia esperar até amanhã à tarde. A mentira que havia contado ao marido dava voltas em sua cabeça, mas as ideias pululavam em maior intensidade. Ana Amélia escreveu até o dia raiar.
Rodolfo acordou e viu a mulher em frente ao pequeno computador, com uma xícara fumegante de café fresco. O cheiro bom se espalhava pela casa e por um segundo Rodolfo esqueceu suas desconfianças.
– Está melhor?
– Sim. Vou tomar café, depois um banho e seguir para o trabalho.
E assim começou o dia para o dois.
Ana Amélia estava cansada, mas não conseguiu dormir.
Rodolfo, por sua vez, não se concentrava nas tarefas diárias.
Na hora do almoço nada comeu. Olhava insistentemente para o relógio de pulso. Queria que o tempo avançasse. Ele resolveu ir novamente à orla, em frente àquela casa, no mesmo horário de ontem. Assim o fez. Chegou um pouco mais cedo e ficou esperando. No mesmo horário do dia anterior Ana Amélia apareceu. Carro estacionado na garagem e ela sobe alguns degraus, coloca a chave na fechadura, abre a porta, entra e fica por lá até às 18:00 hs. Uma cena que se repetiu durante toda a semana, como se fosse uma espécie de ritual.
Rodolfo cada vez mais desconfiado. Às vezes ponderava, pois não tinha visto viva alma naquele lugar, além de Ana Amélia. Mesmo assim pensava que talvez o amante dela pudesse ser o dono da casa. Nesse dilema os dias passavam.
Ana Amélia continuou saindo todas as tardes. Com o passar dos dias as coisas foram se acomodando, mas somente para ela.
Passados alguns dias, Rodolfo tomou uma decisão que lhe custou muito de sua coragem. Iria enfrentar o monstro que crescia atrás da porta. Resolveu, então, ir até a casa. Era numa sexta-feira. Ele havia chegado alguns minutos após Ana Amélia. Viu o carro na garagem. Desceu do seu, atravessou a rua a passos largos. Havia pouco movimento naquele final de tarde, mas ainda podia ver algumas pessoas encostadas na murada da praia, observando o pôr-do-sol. Viu um casal de namorados, de mãos dadas, e nesse momento sentiu um aperto no peito enquanto uma lágrima quente rolava pelo rosto.
Decidido abriu o pequeno portão de ferro. Subiu os poucos degraus. No topo da escada começou a ouvir o som de uma música. Era “linda flor”, na voz de Maria Bethânia. Ele subiu e ao tocar na maçaneta da porta viu que a mesma estava apenas encostada. Seu coração deu um pulo. Não sabia o que encontraria ao adentrar aquela casa.
Não tocou a campainha. Não bateu. Apenas empurrou levemente a porta e entrou a passos lentos, suavemente. Parecia uma criança que estava prestes a fazer uma travessura. Doce ou travessura? – lembrou da pergunta que tantas vezes ouvira em filmes, no dia das bruxas. Talvez o que ele fosse encontrar tivesse sim o gosto mais amargo de sua vida.
Entrou. Começou a olhar o sala. Era pequena, mas confortável. Havia um sofá grande, uma mesinha de centro, na parede uma estante repleta de livros. Não havia televisão, apenas um pequeno aparelho de som do qual vinha a música. O sofá ficava de costas para a porta e nele estava sentada Ana Amélia, com o notebook no colo, absorta, escrevendo. Tão absorta que não percebeu a presença de Rodolfo. Ao lado dela um gatinho persa fingia dormir. Rodolfo pôde ficar ainda alguns minutos parado, olhando a imagem da mulher, tranquila, digitando. O conjunto, a cena toda parecia uma pintura. Era como se o pintor tivesse captado aquele momento e o feito parar na tela.
A música parou. Ana Amélia colocou o notebook no sofá e foi até o aparelho de som. Quando ia voltando viu Rodolfo parado, olhando para ela, sem saber o que fazer. Apesar da surpresa Ana Amélia sorriu para o marido. Ele parecia uma criança prestes a levar um castigo da mãe. Rodolfo estava mais amedrontado do que Ana Amélia.
O silêncio parece ter vindo na hora certa.
Ana Amélia continuou a olhar para o marido e perguntou:
– O que você está fazendo aqui, Rodolfo?
– Não sei, Ana. Realmente não sei.
– Como você descobriu esse endereço?
– É uma longa história.
– Bem, você sabe que vivo de contar histórias. Portanto, conte.
Rodolfo então seguiu até o sofá, sentou-se, respirou profundamente e disse:
– Antes de contar a minha história quero saber da sua.
– Bem, a minha história é apenas um refúgio que encontrei para escrever. Nada além disso. Eu estava me sentido oprimida em nossa casa, os textos não vinham. Um dia estava caminhando pela praia, vi uma placa de aluga-se e resolvi alugar essa casa somente com o intuito de ter um lugar novo que me inspirasse. E realmente funcionou, pois hoje eu acabei de escrever um novo romance. Não contei nada para você porque eu não queria que a atmosfera acabasse. Você sabe que sou, como os jornalistas sempre dizem, meio excêntrica. E você? Conte.
Rodolfo então passou a narrar os acontecimentos desde o dia em que viu Ana Amélia pela primeira vez entrando naquela casa. Contou tudo, inclusive de sua desconfiança de que talvez ela estivesse tendo um caso.
Ana Amélia não se conteve e caiu na gargalhada. Disse que era a primeira vez que um homem era traído por um romance. Bem, pelo menos a palavra romance era um substantivo  masculino.
– Eu realmente estava tendo um caso, Rodolfo, mas um caso de amor com um livro. Você sabe da paixão que tenho pela escrita. Sabe o quanto isso representa para a minha vida. Eu só não lhe contei sobre a casa porque achei que não era necessário. Jamais passaria pela minha cabeça que você iria desconfiar de mim. Aliás, quero pedir desculpas pela mentira que contei naquele dia ao dizer que havia saído para fazer compras. Tolice minha.
Rodolfo então disse que ele sim era quem pedia desculpas, pois havia sido, também, um tolo.
Esclarecidas as desconfianças de Rodolfo, tudo voltou ao que era antes. Ana Amélia disse que continuaria vindo escrever na casa alugada e que já tinha o enredo para o seu próximo livro. Aliás, não só o enredo, como o título para o romance, que seria “Ela saía todas as tardes”.

Rita Venâncio.
(Pintura : Galaxy, de Jackson Pollock) 



sexta-feira, 6 de maio de 2011

Hoje tem Poesia? Tem sim senhor

Procurei a Poesia dentre as páginas de um velho livro que repousa, há muito tempo, na estante esquecida.
Ela não estava lá.
Saiu e deixou em branco o antes colorido da página. Fugiu com todos os versos, suas palavras e rimas. Não deixou nenhum vestígio, sequer um bilhete.
Onde estaria a Poesia?
Um silêncio absoluto pairava sobre a casa agora vazia. A Poesia, antes, preenchia todos os espaços da casa, coloria as paisagens, despertava meus sonhos, fazia festa com a música. Ficava comigo quando o amor partia. Sempre tinha um verso para me consolar na tristeza e um outro para festejar na alegria.
Busquei pistas de onde a Poesia poderia ter-se escondido.
Caminhei por becos, ruas e avenidas. A todos perguntava se tinham visto a Poesia. Ninguém sabia.
O Outono se estendia estação afora e deixava pelo chão um rastro de folhas varridas pelo vento. Já despontavam as primeiras chuvas de maio, encharcando a terra ressequida, e eu prosseguia atrás da Poesia.
Levava comigo o velho livro, morada da Poesia.
Depois de muito caminhar parei na praça de uma cidadezinha muito antiga, como se tivesse parado no tempo.
Sentada em um banco da pracinha vi a Poesia. Havia lágrimas em seus olhos e quis saber o que havia. Ela disse que chorava por que há muito vivia trancada dentre as páginas do livro que agora eu trazia. Disse que nunca mais havia sido lida, que nunca mais havia despertado a minha emoção. Que eu não tinha mais tempo para ela, que há tempos não a lia.
Enquanto eu ouvia chegou um palhaço muito colorido. Atrás dele crianças corriam em um coro de pura alegria.
Ele viu a Poesia.
Perguntou:
– Hoje tem Poesia?
Em coro a criançada se animou:
– Tem sim senhor.
Delicadamente eu estendi a mão e apanhei a Poesia. Coloquei-a na página antes vazia, mas não fechei o velho livro. Dei-o ao palhaço que sorria. Ele leu a Poesia e ela, novamente recitada, recebeu aplausos e a promessa de que eu jamais a deixaria.

Rita Venâncio.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

No fundo da gaveta

Sempre achei vovó Matilda uma mulher misteriosa. Discretíssima, e talvez por isso eu via nela certa aura de mistério.
Desde que ficara viúva morava sozinha. Não quis deixar a casa onde nascera, crescera e tivera seus dois filhos: Luísa e Francisco, meu pai.
Agora a casa pertencia a mim, conforme desejo expresso no testamento de minha avó. Não só a casa, mas todos os objetos que nela estavam. E ainda havia um gatinho persa, que era a minha perdição.
No entanto, o que mais havia me fascinado, e isso desde que eu era criança, foi a herança literária. Nunca fui apegada a outros bens materiais, mas confesso que os livros eram minha maior fraqueza. Digo mais: meu único vício.
Já na fase da adolescência eu deixava de comprar qualquer coisa que fosse somente para ter o prazer de entrar em uma livraria e adquirir um livro novo. O cheiro do livro novo é algo inebriante.
Nunca gostei de livros usados, que foram manipulados por outras pessoas. Entretanto, a exceção ficava por conta dos livros de vovó Matilda. Isso porque ela também pensava como eu a respeito dos livros. Aprendi com ela que livros são de uso pessoal e que não devemos emprestá-los. Devemos fazer anotações neles – de preferência a lápis – grifar sempre algo que nos chame a atenção, demarcar territórios, ou seja, espaços de leitura.
E eu repassava tudo isso ali, sentada na cama dela, desvendando segredos.
Havia acabado de chegar do funeral de vovó Matilda. Uma cerimônia simples, como fora a sua vida. Assim ela quis. Assim o fizemos.
Coube a mim ir até a casa, avaliar a situação do imóvel, decidir o que fazer com tantas coisas acumuladas durante décadas.
Vovó faleceu poucos dias após completar noventa anos de extrema lucidez e mobilidade. Era dona de sua vida e rainha absoluta de seus domínios: a velha casa e seu jardim repleto de folhas, flores e algumas frutas, como a imponente mangueira que descansava há anos naquele quintal e quando florescia eu ficava horas e horas admirando sua beleza esplendorosa.  Outra imagem poética que sempre carreguei no baú de minhas memórias.
Papai queria que eu me desfizesse da casa, mas havia algo que me atraía. Não era um mausoléu. Era o castelo da rainha Matilda, que agora cedia o trono e seus domínios para mim, sua neta convertida algum dia em princesa. E assim seria.
Prossegui em minha tarefa de descobrir os segredos que vovó Matilda guardara.
Não me senti, em momento algum, como uma intrusa. Eu sabia que tinha algo especial para descobrir e guardar. Sim, eu seria, de agora em diante, a guardiã dos tesouros de minha avó.
No fundo de uma das gavetas da cômoda uma caixa de madeira envernizada chamou minha atenção. Ao abri-la dei de cara com um pacote amarrado por uma fita de cetim rosado. Eram cartas. Centenas delas. E todas de um único remetente cujo prenome era Otávio.
A carta que estava em cima do pacote era datada de abril de 2011. Mês passado, pois. Apanhei, então, a última. Qual não foi minha surpresa ao ver a data impressa no carimbo dos Correios: 1939.
Inacreditável, mas as datas ali impressas me mostravam que vovó Matilda havia se correspondido regularmente com o Otávio, desde que completara dezoito anos. E foi exatamente aos dezoito anos que ela se casara com vovô Guilherme. Foram, pois, setenta e dois anos de cartas trocadas. Mais de sete décadas...
Perguntas e perguntas vieram a minha cabeça. E, para respondê-las, eu tinha que ler toda aquela correspondência, juntar o que fora escrito para entender a razão de todo aquele enlace. Parecia que eu estava prestes a ler um romance histórico. Ou melhor, uma história de amor muito antiga que não fora simplesmente cristalizada no tempo. Pelo contrário, as datas recentes das últimas cartas trazia o vigor de uma narrativa amorosa que atravessou toda uma vida.
Resolvi ler a primeira carta, aquela do ano de 1939.

Meu querido e amado Otávio,
São 17:00 hs. do dia 25 de novembro de 1939. O tempo está nublado, assim como os meus olhos. Parece que a Natureza está de luto por nós dois. E isso em dia de festa.
Lá fora explode uma guerra e aqui dentro, no fundo do meu coração, também há estragos e dor, muita dor.
Essas pequenas manchas que apagam algumas palavras, ou que pelo menos as deixa embaçadas, são as lágrimas que por ti derramo. Não, minto. Choro por nós dois.
Hoje é o dia do meu casamento. Às 19:00 hs. estarei entrando na igreja, levada pelo meu pai, para ser entregue a um outro homem. Sinto muito, mas não fui capaz de romper com tudo para fugir com você. Apesar de todo o amor que tenho por você não pude ter coragem suficiente para ir contra as decisões e escolhas do meu pai com relação a mim.
Quando você estiver lendo essa carta, provavelmtente eu já terei dito sim ao meu futuro marido, o Guilherme.
Quero que você saiba que jamais o esquecerei.
Agora o aperto que trago no peito só me permite dizer que lamento.
E adeus.

De sua amada,
Matilda.


Mal consegui terminar a leitura da carta, pois meus olhos transbordaram. Chorei em comunhão com minha avó. Senti e pude perceber a dor que ela deixou transparecer na carta acima.
Pude ler a carta escrita por minha avó porque ela havia sido devolvida com a resposta escrita ao fim de sua assinatura. O Otávio dizia que também lamentava muito o triste desfecho de um amor tão forte, mas que a amava tanto que era capaz de entender a sua decisão em casar com o meu avó.
O curioso dessa troca de cartas, como pude observar, foi que todas as respostas foram dadas ao final das cartas escritas por minha avó. Pelo que pude entender, o Otávio não ficava com as cartas. Coube a vovó guardar as provas do “delito”.
Nunca conheci uma história dessas. Nem mesmo nos romances que li. E foram muitos.
Passei dias trancada naquele quarto, juntando as peças de um quebra-cabeça muito antigo.
Com o avanço da leitura soube que as cartas que minha avó escrevia eram todas entregues ao Otávio pelas mãos de minha tia-avó Rosália. Nunca foram enviadas via Correios. As respostas do Otávio sim, eram colocadas nos Correios, mas o endereço de entrega era o da casa da tia Rosália e, mesmo depois de sua morte, assim continuou.
Lendo as cartas pude ir juntando os retalhos de uma colcha chamada amor. Sim, era amor. Um amor que conseguiu sobreviver por décadas. Não foi uma paixão, pois sua chama se extingue com o tempo. Era amor, simplesmente amor. E não importava se houve ou não traição, o que me fez recordar da Capitu de Machado. Entretanto, pelo que li, Otávio e minha avó nunca se encontraram depois que ela se casou.
O Otávio não se casou. Permaneceu fiel ao amor que tinha – e era correspondido – por vovó Matilda. E ela contou toda a sua vida, como se escrevesse um diário de amor, para  o homem que conhecera em sua juventude. A sua maneira ela também foi fiel ao Otávio.
Através de todas aquelas narrativas vovó Matilda contou sobre seu cotidiano, as frustrações, alegrias, lembranças. Mas nunca deixou, em momento algum, de reafirmar o seu amor pelo Otávio.
Ela também falava sobre o meu avó Guilherme. Também o amava, mas de uma forma diferente. Agora eu entendo quando ela me dizia que existem várias formas de amor. Ela sabia disso porque tinha vivido e conhecido duas formas de amar.
Quando ficara viúva ela escreveu para o Otávio. Em sua resposta ele lamentou a perda de minha avó e suscitou a possibilidade de os dois se encontrarem. Isso foi há cerca de dois anos. Vovó Matilda escreveu outra carta dizendo ao Otávio que há muito tempo o amor dos dois havia ficado preservado do mundo, mas que era, agora, apenas um amor vivenciado através de cartas. Ela não queria quebrar a magia, nem perder a imagem que tinha dela mesma e do Otávio quando eles tinham apenas dezoito anos. E assim eles nunca se encontraram.
Essa constatação me levou a pensar que talvez ele não soubesse da morte de minha avó. Na última carta que ela lhe escreveu disse que estava cansada e sentia que sua hora de partir estava próxima. Ela sempre me dizia que gostaria de saber se as pessoas sentem quando a morte está rondando. Eu penso que ela soube. Talvez por isso mesmo essa última carta estivesse carregada de nostalgia e emoção como se fosse uma despedida.
Otávio respondeu essa última carta escrevendo palavras de ânimo e conforto para a minha avó. Ao final da escrita, disse que a mesma sensação de que a partida dele também estava próxima era presente e, uma vez mais, reiterou o seu amor por ela.
Otávio morava em uma outra cidade, conforme vi pelo endereço nas cartas. E era uma cidade bem distante da nossa.
Pensei que eu teria o dever de lhe informar sobre o falecimento de vovó Matilda, mas enviar uma carta ou um telegrama era muito frio, impessoal.
Resolvi descobrir quem tinha ficado encarregado de entregar as cartas de Otávio a minha avó depois que tia Rosália havia falecido.
Tia Rosália teve somente uma filha, minha prima, que se chama Nina. Ela ainda morava na casa que tinha sido de tia Rosália. Fui até lá. Contei à Nina o que havia descoberto. Para minha surpresa ela disse que tia Rosália, pouco antes de morrer, havia lhe contado o segredo e passado a chave do mesmo, ou seja, Nina ficaria responsável por entregar as cartas à vovó Matilda. E assim o fez.
Conversando com Nina chegamos à conclusão de que eu deveria procurar o Otávio para dar a triste notícia. Dois dias depois peguei meu carro e dirigi até aquela cidadezinha do interior onde ele se estabelecera desde o casamento de vovó.
Era uma cidadezinha linda, repleta de casas coloridas, com mulheres observando o tempo na janela ou conversando com outras em calçadas de pedras muito antigas. Típica cidade do interior. Ali o tempo parecia ter sido congelado como a paisagem retratada em um quadro.
Não foi difícil encontrar o Otávio. Ele morava em uma casinha meio afastada do centro da cidade. Era branca e tinha um belíssimo jardim rodeando a casa. E havia uma mangueira. Impossível não pensar em vovó Matilda. Ela estava ali.
Bati palmas em frente ao portão de ferro e pouco depois um senhor de cabelos brancos feito algodão saiu e veio até mim.
Assim que nos cumprimentamos eu me identifiquei como a neta de Matilda. Ele apertou a minha mão e convidou-me para entrar. Fui recebida por um gatinho persa. Novamente percebi a presença de vovó naquela casa.
Otávio pediu para que eu me sentasse. Ofereceu um chá de maçã e antes que eu dissesse qualquer coisa ele tomou a iniciativa, olhando firme para os meus olhos:
– Você não precisa dizer nada, minha querida. Eu sei que Matilda se foi.
Nossa! Nem sei como não deixei a xícara que estava em minhas mãos se espatifar no chão de ladrilhos, mas não pude segurar as lágrimas e os soluços.
Otávio tomou a xícara de minhas mãos trêmulas, segurou-as entre as suas e me acalmou.
Aquela foi a melhor tarde de minha vida.
Fiquei horas a fio conversando com o Otávio. Conheci naquelas horas a avó Matilda que em toda a minha vida não havia conhecido.
O que posso agora dizer, para finalizar essa narrativa, é que saí daquela casa com a alma leve e a certeza de que um amor como esse é possível. Tão possível como foi o amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, personagens centrais do romance “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez.
E no fundo da gaveta eu pude encontrar o registro desse amor que nem mesmo o tempo e a distância foram capazes de apagar. Ele simplesmente sobreviveu entre as páginas escritas daquelas cartas.
Daquelas cartas de amor tão antigas quanto o próprio tempo.

Rita Venâncio.
(Imagem: pessoasdepessoa1888.blogspot.com)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

"Um quadro torto na parede"



Essas palavras foram ouvidas por Beatriz, certo dia, ditas pelo padre Fábio de Melo, em um canal de cunho católico, a Canção Nova. Então ela me contou que isso fez com que se lembrasse de um fato acontecido em uma das aulas de um curso de especialização que ela fazia em uma universidade pública, e que passo agora a narrar:
Neusa, aluna da turma, uma senhora de certa idade,  vinha faltando com regularidade às aulas. Suas faltas, entretanto, eram abonadas por outra colega, ou seja, ela assinava em nome da Neusa, como se essa estivesse presente.
Beatriz me disse que estava indignada. Esse fato não a prejudicava, mas causava um mal terrível à concepção do que ela entendia como ética e uma vez mais a deixava angustiada com as atitudes de certas pessoas que se dizem cidadãs.
E Neusa era nada mais, nada menos que uma professora.
Ao me narrar o episódio, Beatriz questionou: O Brasil é um país que tem jeito?
A realidade dos fatos, crua e dolorosamente nos responde: Não, o Brasil não tem jeito, exatamente porque dele fazem parte pessoas como a professora Neusa.
Beatriz fechou o seu relato dizendo que Neusa, como disse o padre Fábio, em um outro contexto, é simplesmente “um quadro torto na parede”.

Rita Venâncio.
(Imagem: deboraartes.arteblog.com.br)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O bicho homem

Vi um homem revirando a lata de lixo, na rua quase deserta da manhã, absorto no papel que desempenhava: catar algo para comer.
Lembrei-me de Bandeira, que disse:
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Há tempos que os bichos perderam seu lugar no revirar do lixo. Hoje o homem faz o trabalho do bicho. Hoje o homem é o próprio bicho no lixo.
A cena tornou-se corriqueira nas ruas da metrópole. Não é uma rosa que vejo brotar do asfalto. O que vejo é a dignidade do homem ir ao fundo do lixo.
E o homem se multiplica, pois vários buscam o alimento no lixo. Matar a fome que grita silencia o próprio grito que, mudo, perde-se aflito.
Não há poesia na imagem que vejo, mas tento buscar nas palavras o que talvez ninguém perceba, pois o homem no lixo tornou-se invisível aos olhos dos que passam. Anestesiamos os sentidos e fingimos que o homem não garimpa o lixo. Não é ouro o que procura. São restos do prato de um outro homem o que busca esse homem no lixo.
Posso compará-lo com o abutre. Novamente o homem toma o lugar do bicho. Do bicho na imundície do próprio lixo.

Rita Venâncio.

sábado, 16 de abril de 2011

O limite da dor


Quando adolescente, li uma crônica do Paulo Mendes Campos, intitulada “Para Maria da Graça. No último parágrafo o autor diz: “Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça”.

Esse trecho é um dos mais belos que li ao longo de minha experiência como leitora que sou.

Não sei o porquê, mas hoje veio-me à memória, feito uma calma onda quebrando na areia, o fragmento acima mencionado.

Qual o limite da dor?

Certo dia escrevi que a dor não curada pelo tempo não existe, pois dizem que o tempo a tudo cura.

Guardei a frase do Paulo Mendes Campos como a um tesouro achado numa ilha deserta e jamais a esqueci.

Quando a paixão fincava suas raízes no meu coração e, por alguma razão, não frutificava – o fruto morria antes da maturação – a frase saltava de uma das gavetinhas de minha memória e eu renascia como uma fênix. E foram incontáveis renascimentos, decorrentes de outras também incontáveis desilusões amorosas.

Quando a paixão findava sua apresentação eu vivia o luto necessário, derramava as lágrimas necessárias e sofria cada dor de forma intensa. Mas havia o limite imposto por mim e que um dia fora aprendido dentre as páginas de um livro de crônicas.

Aprendi a impor esse limite e há tempos sei que a dor, qualquer que seja ela, tem sua justa medida. Como disse Cecília Meireles: “Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”.

A partir do momento em que nos permitimos ultrapassar os limites da dor, incorremos no grave erro de nos machucarmos ainda mais, de não deixarmos a ferida cicatrizar. Talvez seja nessa ultrapassagem do limite  que as tragédias pessoais aconteçam, que o pulo para o abismo se materialize ou que alguma atitude drástica saia do armário e nos tome de assalto.

Não importa o tamanho da dor, sua causa e consequência, uma hora ela passa, arruma suas malas e muda de casa, assim como a finitude das paixões. Afinal, “infinito enquanto dure” é apenas e tão somente o amor contado por Vinicius.

Rita Venâncio.