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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Poema de Natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes
 (Imagem: meuanjo.com.br)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Poética (I)


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem.

Naço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

(Vinicius de Moraes)
(Imagem: cronicasysoldacabral.blogspot.com)

    quinta-feira, 28 de julho de 2011

    Soneto do amor total


    Amo-te tanto, meu amor... não cante
    O humano coração com mais verdade...
    Amo-te como amigo e como amante
    Numa sempre diversa realidade.

    Amo-te afim, de um calmo amor prestante
    E te amo além, presente na saudade
    Amo-te, enfim, com grande liberdade
    Dentro da eternidade e a cada instante.

    Amo-te como um bicho, simplesmente
    De um amor sem mistério e sem virtude
    Com um desejo maciço e permanente.

    E de te amar assim, muito e amiúde
    É que um dia em teu corpo de repente
    Hei de morrer de amar mais do que pude.

    (Vinicius de Moraes)
    (Imagem: docecantinho.blogs.sapo.pt)

    quinta-feira, 21 de julho de 2011

    Ausência

    Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces 
    Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
     
    No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
     
    E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
     
    Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
     
    Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
     
    Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
     
    Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
     
    Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
     
    Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
     
    Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
     
    Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
     
    Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
     
    E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
     
    Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
     
    Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
     
    E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
     
    Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

    (Rio de Janeiro, Vinicius de Moraes)
    (Imagem: coisas-do-burro.blogspot.com)

    As borboletas


    Brancas 
    Azuis
     
    Amarelas
     
    E pretas
     
    Brincam
     
    Na luz
     
    As belas
     
    Borboletas.
     

    Borboletas brancas
     
    São alegres e francas.
     

    Borboletas azuis
     
    Gostam muito de luz.
     

    As amarelinhas
     
    São tão bonitinhas!
     

    E as pretas, então...
     
    Oh, que escuridão!

    (Vinicius de Moraes)
    (Imagem: historinhasdavozinha.blogspot.com)

    terça-feira, 19 de julho de 2011

    A você, com amor


    O amor é o murmúrio da terra 
    quando as estrelas se apagam
     
    e os ventos da aurora vagam
     
    no nascimento do dia...
     
    O ridente abandono,
     
    a rútila alegria
     
    dos lábios, da fonte
     
    e da onda que arremete
     
    do mar...
     

    O amor é a memória
     
    que o tempo não mata,
     
    a canção bem-amada
     
    feliz e absurda...
     

    E a música inaudível...
     

    O silêncio que treme
     
    e parece ocupar
     
    o coração que freme
     
    quando a melodia
     
    do canto de um pássaro
     
    parece ficar...
     

    O amor é Deus em plenitude
     
    a infinita medida
     
    das dádivas que vêm
     
    com o sol e com a chuva
     
    seja na montanha
     
    seja na planura
     
    a chuva que corre
     
    e o tesouro armazenado
     
    no fim do arco-íris.

    (Vinicius de Moraes)
    (Imagem: carypink.blogspot.com)

    A rosa desfolhada


    Tento compor o nosso amor 
    Dentro da tua ausência
     
    Toda a loucura, todo o martírio
     
    De uma paixão imensa
     
    Teu toca-discos, nosso retrato
     
    Um tempo descuidado
     

    Tudo pisado, tudo partido
     
    Tudo no chão jogado
     
    E em cada canto
     
    Teu desencanto
     
    Tua melancolia
     
    Teu triste vulto desesperado
     
    Ante o que eu te dizia
     
    E logo o espanto e logo o insulto
     
    O amor dilacerado
     
    E logo o pranto ante a agonia
     
    Do fato consumado
     

    Silenciosa
     
    Ficou a rosa
     
    No chão despetalada
     
    Que eu com meus dedos tentei a medo
     
    Reconstruir do nada:
     
    O teu perfume, teus doces pêlos
     
    A tua pele amada
     
    Tudo desfeito, tudo perdido
     
    A rosa desfolhada.

    (Vinicius de Moraes)
    (Imagem: kallytacristina.blogspot.com)

    sábado, 2 de julho de 2011

    Dias de luto e recolhimento


    A morte


    A morte vem de longe 
    Do fundo dos céus
     
    Vem para os meus olhos
     
    Virá para os teus
     
    Desce das estrelas
     
    Das brancas estrelas
     
    As loucas estrelas
     
    Trânsfugas de Deus
     
    Chega impressentida
     
    Nunca inesperada
     
    Ela que é na vida
     
    A grande esperada!
     
    A desesperada
     
    Do amor fratricida
     
    Dos homens, ai! dos homens
     
    Que matam a morte
     
    Por medo da vida.

    (Vinicius de Moraes)
    (Imagem: oarautododeserto.blogspot.com)

    As cores de abril


    As cores de abril 
    Os ares de anil 
    O mundo se abriu em flor 
    E pássaros mil 
    Nas flores de abril 
    Voando e fazendo amor 

    O canto gentil 
    De quem bem te viu 
    Num pranto desolador 
    Não chora, me ouviu 
    Que as cores de abril 
    Não querem saber de dor 

    Olha quanta beleza 
    Tudo é pura visão 
    E a natureza transforma a vida em canção 

    Sou eu, o poeta, quem diz 
    Vai e canta, meu irmão 
    Ser feliz é viver morto de paixão.

    (Vinicius de Moraes e Toquinho) 

    (Imagem: aleblogspt.blogspot.com)