Meu amor,
a casa
está tão sozinha que
os
pássaros vem morre lá dentro.
Nada
mudou, mas falta
a mão para
acariciar o gato
e acolher
a ninhada secreta,
o sorriso
que enchia o tanque
e fazia
crescer a horta.
Já ninguém
apanha as laranjas mais altas
ou usa a
sombra da nogueira.
E até os
ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto
de os abatermos:
a ausência
diz-se melhor no esplendor
inútil das
rosas sem esse olhar,
nas
papoilas raras que duram
o tempo de
uma fotografia.
Um dia
deixaremos também uma casa assim,
casulo
abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós
escutará as asas ansiosas
na
chaminé, antes de pousar o livro
e amparar
o último pássaro.
Só
parecerá menos triste
porque não
teremos, então,
nada mais
a perder.
Inês Dias
(Imagem: gathering-wildflowers-1885-charles-heberer-american-
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