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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Inconstância


Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela me dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor, que vai surgindo.
Que há de partir também... nem eu sei quando...

(Florbela Espanca)

(Imagem: luso-poemas.net)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Do encontro de hoje com a querida professora de Literatura Portuguesa, Pompéia, uma lembrança de Florbela Espanca.


A um livro

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!...

(Florbela Espanca)