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terça-feira, 25 de junho de 2019

Dorme outra sociedade



Suspensa em algum
canto do teu coração
dorme outra saudade.

©Rita Venâncio.
Copyright: É proibida a cópia, reprodução, distribuição, exibição, 
criação de obras derivadas e uso comercial sem a sua prévia permissão.

(Imagem: httpspleno.newsopiniaoelaine-cruzopiniao-elaine-cruz-qual-e-a-sua-saudade.html)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Abrindo espaços íntimos



 Ela sabia que a entrada daquele homem pela porta de sua casa não era uma coisa banal. Não chegava a ser um terremoto, mas se preparava para alguns deslocamentos geológicos na sua alma. Diria que ela propiciava que isto acontecesse, como se ali fosse se cumprir um ritual. E seria bom que ele soubesse disto, que as pessoas não deviam entrar numa vida, numa casa e consequentemente num corpo de maneira desatenta e egoísta. A casa é lugar de permanência, mais que motel ou hotel. Exige cumplicidades mais delicadas.
Contudo, precavida quanto a essa noção de permanência, sabendo que a vida às vezes é um deserto por onde passam caravanas e tuaregues, admitiu que já seria bom se a casa se convertesse num oásis.
Os primitivos sabem melhor que nós, pretensos civilizados, que estabanadamente banalizamos tudo, que o ritual é que dá sentido aos fatos. Mínimos gestos ou certos instantes podem se tornar históricos se estiverem entranhados desse ritmo denso de adágio que tem os rituais.
Cruzar um umbral, a soleira, ultrapassar um limite são coisas graves.
Porque uma coisa é o ver, o aproximar-se, o apertar a mão, dar um sorriso e se tocar progressivamente procurando intimidade. Mais do que ocupar espaços, isto é ir povoando espaços. Externamente é quando os amantes vão se ampliando, se alongando e habitando conjuntamente o que é público: o cinema, o restaurante, a caminhada na praça ou praia. Mas, de repente, estar na casa, na sala, no quarto, no toalete do outro, ver as roupas dependuradas nos cabides, a escova e os grampos na bancada junto à pia, os vidros de perfume, aqueles objetos de decoração na mesa da sala, cinzeiros de prata, uma escultura da Polinésia ou cópia de uma santa barroca, isto, convenhamos, é estar com a alma exposta.
É como abrir portas, janelas e gavetas. Há o inesperado. E as pessoas e casas, o que são senão gavetas dentro de gavetas, caixas dentro de caixas? Então, ir se aproximando de alguém, penetrar no espaço físico onde a figura amada habita é ir, como na estrutura da caixa chinesa, que tem outra caixa menor, que contém outra menor, que contém outra menor ainda, que contém outra e outras, até, enfim, chegar ao letente coração do outro.
Essa mulher está rodeada de objetos que tiveram outra história, outras histórias. E durante algum tempo, como se estivesse num luto secreto, adiou reinaugurar o leito, reencenar os gestos, esperar que outro homem fizesse brotar nela arrebatamentos em insuspeitadas regiões de seu corpo.
Até os objetos se deram conta que ela está oferecendo algo muito delicado. Daí uma cumplicidade entre os objetos da casa e o corpo dessa mulher. Eles também esperam que esse homem venha como um cauteloso conquistador. Há uma expectativa no ar, a cômoda barroca guarda em suas volutas e elipses alguma tensão, o abajur emana uma contida luz e os tapetes parecem reanimar ternuras. Enfim, os objetos estão conscientes de seu papel de coadjuvantes.
Se ele, em vez da delicadeza do gato que é capaz de passar por taças de cristal sem quebrá-las, for do tipo invasor, um godo ou visigodo, que não controla os limites de seu corpo e fala preenchendo tudo egocêntrica e desatentamente, então ocorrerá uma inapelável ruptura, a profanação do instante.
Ela gostaria que ele chegasse como o viajante que vindo de longe, no entanto, fala a sua língua. Alguém que não extrapolasse do presente nem invadisse seu passado e futuro. Que passado e futuro são coisas que competem e ela doar, quando e a quem os merecer.
Ela o quer nos limites para os quais está preparada agora.
Ela gostaria que ele chegasse com a virilidade suave de um anjo. E que quando despertasse no dia seguinte tivesse aquela sensação do mito antigo, de que um deus dormiu lá em casa. Tranquila era veria que a casa e todos os objetos estariam em ordem. Só que encantados. Encantados como ela, que encantada sai para um novo dia com o sorriso de posse e confiança.
E se ela olhasse para trás veria que os objetos da casa a contemplam cúmplices e igualmente felizes.
(Affonso Romano de Sant`Anna, in: Tempo de delicadeza)
(Imagem:es.123rf.com)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Variações em torno da paixão


Paixão é a alucinação amorosa.
E os apaixonados são de duas espécies: os generosos que se dão inteiramente, se jogando estabanadamente nas mãos do outro, e os possessivos, que querem que o outro se incorpore a eles convertidos em sombra viva.
Mas talvez haja um terceiro tipo: o dos que não se apaixonam, mas despertam paixões. Na impossibilidade ou no medo de se apaixonarem, posto que paixão é abismo, alimentam-se da paixão alheia, ou melhor, incentivam a paixão em torno para preencher algo em si.
Paixão, por isto, é arma de dois ou três gumes. E corta. E sangra. Se não sangrou, se não teve insônia, se não desesperou, se não ficou exposto na úmida espera, paixão não era.
Talvez fosse desejo, que o desejo é diferente.
No desejo a gente quer o outro para possuí-lo apenas passageiramente. É como se fosse um apetite despertado por um fruto ou alguma comida saborosa que saliva nossos sentidos. É como se fosse possuir um objeto na vitrina. É um desejo de posse natural, estético, erótico, mas, sendo mais desejo que qualquer outra coisa, isto vai passar.
E passa.
Na paixão, não.
Na paixão, a gente quer se fundir com o outro. Para sempre. De corpo e alma. Perde totalmente o centro de gravidade. Transfere a moradia de seu ser para a casa do ser alheio. É como se vestisse a pele do outro. E se o outro disser assim: “Vai ali buscar aquela estrela ou mesmo a Lua” (como naquele lindo conto de Murilo Rubião chamado “Bárbara”), se o outro disser isto, a gente vai airosamente buscar o que ele quer.
E se o outro disser: “Não estou gostando de seu nariz”, a gente opera, corta, joga fora, não só o nariz, mas qualquer outra coia, porque nesse caso, qualquer palavra ou sugestão é ordem.
A paixão é boa?
A paixão é ruim?
Ninguém sabe. Ela acontece. Como certas tempestades, ela acontece. Assim como depois dos vendavais os elementos da natureza já não são os mesmos, ninguém será o que era depois do desvario da paixão.
Vidas renascem com paixões.
Outras viram cinzas da paixão.
E há pessoas que são como aquela ave mítica, a Fênix, vivem renascendo das cinzas da paixão.
Marx, portanto, errou completamente. Não é a luta de classe que move a história, é a paixão. Paixão é a revolução a dois. Ela desafia o sistema. Diante dela a comunidade fica abalada. A paixão é anti-social e egoísta, no que é diferente do amor maduro, longo e duradouro, que fecunda a vida dos amantes e reforça os laços da comunidade. Foi assim com Tristão e Isolda, com Genevieve e Lancelot. Não é de hoje que os reinos se fazem e se desfazem por causa da paixão.
Existe diferença entre amor e paixão?
No amor, claro que há luminosa coabitação. Mas o amor é também paciente construção. Já a paixão é arrebatamento puro e aí a voragem é tão grande que pode tudo se esgotar de repente.
Quantas vezes alguém se apaixona numa vida?
Há gente que vive se inventando paixões para viver, que vive morrendo de amor. E há gente que organiza toda a sua vida em torno de uma única e consumidora paixão.
Paixão é transgressão. Quanto mais obstáculos inventarem, mais o apaixonado os saltará. E o apaixonado não tem medo do ridículo. O que lhe importa o mundo, se o seu mundo é apenas o mundo da pessoa amada?
A paixão tem cor. Mais que vermelha e rubra, é roxa. Pressupõe morte e ressurreição.
De paixão vivemos muito.
De paixão morremos sempre.

(Affonso Romano de Sant`Anna. In: Tempo de delicadeza)