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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Soneto de Natal


Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

(Machado de Assis)
(Texto: http://www.releituras.com/machadodeassis_soneto.asp)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

De Machado de Assis...


“Do semear depende a colheita. Mas que terra é esta que tanto gasta em restituir o que se lhe confiou? Semeei. Dividi minha alma, esmigalhei a minha vida, e às mãos cheias lancei os melhores fragmentos a esmo, na terra úbera e no chão pedregoso. Foi preciso cantar, cantei: era dócil a imaginação e eu deixei-a correr à solta; foi preciso chorar, chorei; as lágrimas podiam comprar a ventura; foi preciso confiar, confiei; a confiança prepara o coração, e legitima os desejos. Mas ela, a planta desejada, por que se deteve no seio da terra?

 (Do conto “Felicidade pelo casamento”, de Machado de Assis)
(Pintura: Colheita de flores, de Maria José Marinho - pessoasdepessoa1888.blogspot.com)