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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Epigrama nº. 11


A ventania misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu,
Um largo véu, na sua mão

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.

 (Cecília Meireles)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Inscrição na areia



O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

(Cecília Meireles)
(Imagem: poesiasegirassois.blogspot.com)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Motivo


Eu canto porque o instante existe 
e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias, 
não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico, 
se permaneço ou me desfaço, 
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

(Cecília Meireles)
(Imagem: infinitodemim.blogspot.com)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Aprendi com a primavera


Aprendi com a primavera
a deixar-me cortar
e voltar sempre inteira.

(Cecília Meireles)

(Imagem: mileneazevedo.blogspot.com)

domingo, 12 de junho de 2011

O amor


É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor são os
fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,
é para poucos!!"

(Cecília Meireles)

(Imagem: panoramio.com)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Lua adversa


Tenho fases, como a lua 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 

Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 

E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...) 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu... 



(Cecília Meireles)


(Imagem:ladybutterfly28.blogspot.com - http://www.luso-poemas.net) 

terça-feira, 3 de maio de 2011

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
 
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
 
tão paradas e frias e mortas;
 
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
 

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles
(Pintura de Sir William Orpen - virgula.uol.com.br)