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domingo, 30 de setembro de 2012

No silêncio da noite insone



Há dias em que o tempo desperta
uma saudade incômoda,
que aperta o peito, feito um
fio de arame farpado.
E sangra o amor inacabado,
perdido entre nós,
no desacerto das horas.
O pensamento, nau perdida
de tuas lembranças,
vaga em busca do porto seguro
que já não encontro em ti.
Eu naufrago nas palavras.
Mergulhada no abismo
sem fim costuro os versos,
erguendo estrofes em
um poema imaginário.
Verto, no silêncio da noite insone,
as lágrimas, gotas insanas de
um pranto dorido, sangue
perdido em tuas veias.
Tu és, ainda em mim,
a metáfora do amor tardio,
a ausência sentida,
a resposta que,
por breve momento,
procuro em vão.
Resgato a Bacante de outrora
que já não serve ao Mestre.
Enquanto isso, a Poetisa,
melancólica, somente
lamenta e chora.

Rita Venâncio.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ponto, vírgula



O amor ficou suspenso,
perdido no tempo,
sem ter asas para voar.
Deixou de ser beija-flor,
perdeu o encanto, a
razão para amar.
Viu-se perdido no labirinto
onde as emoçôes são desfeitas
e o fio de Ariadne
não alcança.
Havia resquícios de
esperança no teu
coração ferido,
dilacerado pelo esquecimento,
mas a brevidade foi
acumulando mágoas,
apagando os laços entre nós.
A esperança caiu
no abismo e a vida
foi se tornando uma
fotografia
em preto e branco.
Não havia mais
a vírgula no discurso
que o teu coração tecia.
O ponto final, escrito
no fim do poema,
é a certeza de que
o amor, finalmente, virou
a página, perdeu-se
no tempo, talvez
levado pelo vento.
A vírgula, enfim suspensa,
cedeu lugar ao ponto final
que, agora, na sutileza do
verso te dispensa.

Rita Venâncio. 
(Imagem: Tela - Richard Emil Miller - 
http://rceliamendonca.wordpress.com/category/temas-da-arte/)

Nada mais




Não importa se a
amendoeira,
florida, suscite em mim
lembranças tardias.
O tempo cuidou
de amenizar tais
lembranças, ou torná-las
cinzas ao romper dos dias.
Nada mais interessa,
desde que partiste de mim.
Não quero essas velhas
Recordações, ou mesmo
a imagem avermelhada
do céu, quando se põe o sol.
Tudo, afinal, me fragiliza,
dói e ainda sangra.
Teço, nos fios do poema,
um discurso dorido,
perdido entre as páginas
de um mesmo drama.
Tua fotografia, escondida
no livro, guarda resquícios
de outros sentimentos,
como se o mesmo tempo
traçasse outra escrita.
Torno-me silêncio
quando a noite cai e
deixa em minha alma a
penumbra do vazio.
Tua marca, em mim,
fez-se indelével como
um verso de Bandeira
que canta o amor
quase inacabado,
quando a estrela
da manhã adormece.
Em tudo o que
ainda sinto floresce
um pouco de ti
e nada mais.

Rita Venâncio.
(Imagem: Tela : Edward Killingworth Johnson - 
http://rceliamendonca.wordpress.com/category/temas-da-arte/)

terça-feira, 17 de julho de 2012

"O céu é um cinema quando finda o dia"



“O céu é um cinema quando
finda o dia”, canta Zé Geraldo.
Digo que o céu é um poema
quando visto de teus olhos
verdes, enquanto a alma da
Poetisa flutua em mim
um doce e ameno segredo.
No canto que o verso
canta reflete-se a palavra
que cala no peito.
Não devo anunciá-la...
Não devo permiti-la...
Mas a paixão costuma cegar-me
os olhos, assim como os
de Édipo foram
silenciados na escuridão do dia.
E sei, como canta Chico,
“que os poetas como os
cegos podem ver na escuridão”.
A poetisa vê na penumbra
da noite que veste o dia
o lamento do que talvez
uma única vez vivenciará.
Quiçá o tempo, algoz dos dias
intensos que passo em ti,
usará a guilhotina para cessar
a plenitude do momento, ou a
velha ampulheta que encerra
em si o grão de areia, o
minuto que refaz a hora,
devorando-a vorazmente.
O que devora a alma da
Poetisa é um segredo,
uma certeza que tece com
fios incertos qualquer palavra
tua que não seja
somente um adeus.

Rita Venâncio.
(Imagem: tela de Carl Herpfer - http://rceliamendonca.wordpress.com/)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O engano da borboleta


Um buquê de lírios
desabrochava atrás
de uma cerca.
Quando a luz batia
na brancura daqueles
lírios era como se
ficassem brilhantes,
rendidos nos
braços do astro-rei.
Aquele cenário
atraiu a borboleta que,
afoita, foi de encontro
à imagem que via.
Lêdo engano...
Suas asas bateram
contra uma supérficie
dura, fria.
O que havia na
parede nada mais era
que um quadro retratando
o buquê de lírios.
A borboleta,
abruptamente foi ao
chão, com as asas
partidas.
O colecionador
pegou o frágil corpo,
enfiou nele o
alfinete e em cima
da mesa uma moldura
esperava por essa
ilustração.
Mais um quadro
adornava a sala e
nele estava o
engano da borboleta.

Rita Venâncio.
 (Imagem: taibioideias.blogspot.com)

Diante de tua ausência



Não me dobro mais diante
de tua ausência.
O tempo cuidou de levar para
debaixo do velho tapete
as tuas lembranças.
Afinal, cinzas.
Vou tecendo nas linhas
do cotidiano um outro
discurso, procurando reconstruir
a imagem do amor
que outrora fragmentou-se.
E tudo é silêncio.
Em mim ainda há
resquícios daquele
amor, mas sei que o tempo
vai curar as feridas,
costurar o tecido,
secar as lágrimas.
Ficam alguns versos
onde a saudade constrói seu
ninho, mas aos poucos
o poema vai se perdendo nos
caminhos do vento.
Diante de tua ausência
recolho os sentimentos
e procuro, na lembrança
de agora, ter  a certeza
de que é apenas uma
recaída de breve momento.

Rita Venâncio.
 (Imagem: autor: George Cochran Lambdin 
http://rceliamendonca.wordpress.com/category/imagem-do-dia/)

A espera


Durante anos, o relógio
da parede soou horas intermináveis.
Era a época da longa espera,
quando o calendário desfolhava
lentamente os dias,
meses, anos, em uma contagem
de tempo sem fim.
Ela esperava.
Ele não vinha.
Ela, a dona da casa,
a senhora daquele casebre perdido
no meio do nada, em um
longíquo vilarejo à beira do mar.
Ele, o soldado que um dia
partira para a guerra.
Ela não entendia por que
os homens lutavam, por que
os homens morriam estupidamente.
Enquanto isso ela sentia
a vida parada, sempre à espera do amor
que nunca regressava.
Os dias seguiam o curso das marés,
em um ir e vir repleto de
desejos e incertezas.
Um dia talvez chegasse
uma carta que lhe
dissesse que o homem amado
havia morrido no campo de batalha,
e teria sido enterrado com honras
dadas a um herói.
Mas ela não queria isso.
Ela não gostava de
pensar dessa forma tão trágica e objetiva.
Preferia pensar na volta dele,
inteiro e somente para ela.
Então eles poderiam
retomar o curso de suas vidas,
como se a interrupção tivesse
sido apenas momentânea.
E ela ia cuidando das
flores, semeando o campo
com as próprias mãos e
colhendo o alimento que a terra oferecia,
preparando o pão com
o trigo e guardando com
todo o cuidado o coração que
somente esperava.

Rita Venâncio.
(Imagem: autor: Arthur Hopkins 
http://rceliamendonca.wordpress.com/2011/09/14/temas-da-pintura-mulheres-e-flores-10/)

Os olhos de Elisa



Vi aflorar dos olhos de Elisa
toda a imensidão do mar azul,
mergulhada em meu coração.
Havia gaivotas neles refletidas,
com as asas em silêncio,
planando sobre as águas.
Tudo vinha dos olhos de Elisa,
com a simplicidade aflitiva que
finda o dia quando o crepúsculo
coroa o céu e a tarde cai,
lentamente, em mim.
Era nos olhos de Elisa
que minha alma transbordava
sentimentos e desejos
em um vendaval intenso
e avassalador.
Não saberia dizer
a cor dos olhos de
Elisa, pois sempre via
neles o arco-íris que
surge no céu quando
a tempestade cessa.
Violetas floresciam
nos olhos olhos de Elisa
quando borboletas adejavam
ao seu redor.
Tudo se resumia nos
olhos de Elisa.
Eu gostava quando ela
piscava e dos seus
olhos surgiam pássaros azuis.
Um dia vi um beija-flor
emergir de suas lágrimas.
Eram águas de dor.
Mesmo assim os olhos de
Elisa sorriam cores.
Por toda a minha
vida segui os olhos de Elisa
como um andarilho que
trilha a rota das estrelas
e vai tentando decifrar
o universo particular.
Tudo isso para descobrir que
nos olhos de Elisa eu via
refletido todo o seu amor.

Rita Venâncio.
(Imagem: autor: Eugene de Blaas - 
http://rceliamendonca.wordpress.com/2011/09/14/temas-da-pintura-mulheres-e-flores-10/)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando você se foi


Quando você se foi era o tempo
em que a noite caía sobre mim.
Não havia lua, nem
estrelas, nem sonhos.
Apenas a penumbra
mortiça de
uma meia-luz na
fresta da porta.
O silêncio cortava o
espaço como um punhal
afiado para a
batalha.
Amores partidos
permeavam
o campo e
o meu coração sangrava
dor e mágoa na
fria madrugada.
Havia uma revolução
de sentimentos,
um não sei o
quê de lágrimas amargas
que percorriam o
leito dos meus olhos.
E de tudo, um pouco,
um muito de você.
Em algum lugar do
peito a incerteza
que a despedida
deixa, como marca
indelével, rubra.
Quando você se
foi uma parte de
mim ficou mimetizada
na poeira dos teus pés.

Rita Venâncio.
(Imagem: odiariodeumaadoradoragreycimarcon.blogspot.com)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Outro tempo


Dorme, no fundo da velha gaveta,
um poema esquecido.
Fora escrito em um outro tempo,
quando eu ainda te amava.
Eram sobras de sentimentos,
rascunhos de dores, partidas.
Não sei precisar a data,
mas recordo a emoção que
ainda sangra, com tintas fortes,
rubras, o meu peito.
Talvez tenha sido escrito
no tempo em que a
adolescência desabrochava – flor
insana e delicada – ,
época em que
tudo parecia ser intenso demais,
dramático demais,
exagerado demais, como aqueles
versos do Cazuza.
Penso também que poderia
ter sido no tempo da
maturidade, quando
O amor já não é tão urgente e
as palavras caem com mais
suavidade no papel.
Ah! O tempo e suas teias...
As armadilhas do cotidiano,
o sabor agridoce das lágrimas que
continuam, ainda, a cair.
Mas o poema é de amor.
E amor é atemporal.
O poema esquecido, surge agora
diante de meus olhos
e longe do teu coração.

Rita Venâncio.
(Imagem: home-boxer.blogspot.com)

domingo, 28 de agosto de 2011

A maçã



A maçã, vermelha, descansa
no prato, sobre a mesa.
Assim, olhando de relance,
furtivamente,
dá a impressão de ser
um quadro que retrata
a natureza morta.
Entretanto, sua pele macia,
lustrosa, enche a boca d´água,
como se a maçã fosse o último
fruto sobre a Terra ou,
quem sabe, a última refeição
de um condenado à morte.
Talvez a lembrança do
poema de Bandeira.
Ou será de Vinicius?
Alguns diriam tentação.
Penso ser apenas a intertextualidade
poética que passeia
na memória.
Mas a maçã, vermelha, descansa
no prato, sobre a mesa.
Vermelha maçã na tua boca
também vermelha.
Suculenta maçã na saliva doce
que inunda e tempera
o paladar, o olfato, a visão e o tato.
Não importa o tempo que flui
sorrateiro, deslizando cúmplice
ponteiros afora.
Lá se vão os segundos, depois
os minutos, quiça as horas.
Continua a maçã, inerte,
por sobre a mesa.
Talento eu tivesse...
Pintaria uma tela.
Mas, por agora, apenas um
poema, e nele alguns versos,
talvez rubros, assim como
a maçã, vermelha, que
descansa no prato,
sobre a mesa,
acintosamente bela.

Rita Venâncio.
(Imagem: cristinasales.pt)