Mostrando postagens com marcador Adélia Prado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adélia Prado. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Antes do nome


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o ‘de’, o ‘aliás’,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventa para ser calada.
Em momento de graça, infrequentíssimos,
Se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mãe.
Puro susto e terror.

(Adélia Prado)
(Imagem: arenadascronicas.blogspot.com)

domingo, 12 de junho de 2011

Corridinho


O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

(Adélia Prado)

(Imagem: zezinhomota1.blogspot.com)