terça-feira, 30 de outubro de 2012

A tua asa



Roça-me também tu com tua asa – única parte
verdadeiramente palpável de ti.

Que não seja sempre a inoportuna
asa da morte, semelhante à dos morcegos,
a roçar-se por mim.

Naquelas noites de temporal desfeito
que nada alumia nem aquece,
nem sequer a memória, que costuma ser
o que temos de mais quente e luminoso...

– nessas noites desabridas,
se a tua rasa me roçasse o rosto,
recebê-la-ia como um nu recebe uma manta;
como um viandante em noite de Inverno
a quem é oferecido um canto à lareira
e uma candeia
para esconjuro das trevas e do frio.

Roça-me com ela, por favor,
ao menos uma vez e numa noite dessas.

A.    M. Pires Cabral
(Imagem: die-sentimentale-johann-peter-hasenclever_thumb - http://rceliamendonca.wordpress.com/category/artes/)

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