Roça-me também tu com tua asa – única parte
verdadeiramente palpável de ti.
Que não seja sempre a inoportuna
asa da morte, semelhante à dos morcegos,
a roçar-se por mim.
Naquelas noites de temporal desfeito
que nada alumia nem aquece,
nem sequer a memória, que costuma ser
o que temos de mais quente e luminoso...
– nessas noites desabridas,
se a tua rasa me roçasse o rosto,
recebê-la-ia como um nu recebe uma manta;
como um viandante em noite de Inverno
a quem é oferecido um canto à lareira
e uma candeia
para esconjuro das trevas e do frio.
Roça-me com ela, por favor,
ao menos uma vez e numa noite dessas.
A. M.
Pires Cabral
(Imagem: die-sentimentale-johann-peter-hasenclever_thumb
- http://rceliamendonca.wordpress.com/category/artes/)
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